O shuttle deixou-me na avenida sete de setembro.
Manaus é cafona, decadente. No último quartel oitocentista, Dunlop desenvolveu o pneumático e a cidade cresceu à exploração dos seringueiros, atraídos por fazendeiros, retidos por capangas. A lei da bala, a mesma escravatura que desaparecera, há meia dúzia de anos, no papel.
A produção decaiu, deslocalizou-se para o sudeste asiático, e pouco recuperou com a invasão japonesa da Malásia.
No centro, ruem os prédios históricos, o antigo Hotel Cassina ainda sobreviveu como Cabaré Chinelo...
O negócio vai mal. A prostituição e os reclamos pela cidade alertam para a AIDS e promovem a camisinha, mas é preciso dar o litro e muita borrachinha, para fazer uma roda de camião.
O brasileiro vive a rua, o caos e o buzinão, os fuscas e os mercedinhos atulhados de caixas, o bate-papo no barzinho Brahma e do Armando, as barraquinhas, legais, eu acho, o tacacá de camarão perfumado de ervas amazonenses, água de coco, happy hour e show de bola no calçadão, flanelinhas, trombadinhas e batedores de carteira, trabalha que Deus ajuda.
O ar, húmido e poluído, asfixia. O som do banzeiro, amazorrado e nostálgico, recorda a belle époque e a Manaus gloriosa...
A Europa no meio do nada, a sala de ópera improvável na floresta, o Teatro Amazonas remonta aos anos de ouro do ciclo da borracha: luxo e ostentação, parisiense à altura como convinha, poltronas bordeaux e champanhe no intervalo; os lustres, venezianos e, no pano de boca, o encontro das águas, aí atuaram Bernhardt e Fonteyn. A cúpula evoca as cores da bandeira, ordem e progresso.
Mitos e ritos, cumpri a promessa, capenguei três quarteirões e derreti-me na Sorveteria Glacial! Picolés e gelados cremosos, melhor os sorvetes de frutos tropicais: pupunha, tucumã, araçá-boi, taperebá, açaí com tapioca; o cupuaçu, é feio lamber os dedos...
O mercado Adolpho Lisboa, em ferro e vidros coloridos, tinge o Rio Negro. Entro pelas tartarugas. Chegam verdureiros e mercadores de peixe, expõe-se, fresco, o tambaqui, o curimatá, o tucunaré e o aruanã de dentes afiados, bicudas, cachorras e piranha. E o rei, o pirarucu, num filete de vinte quilos.
No pavilhão central, o néctar, a doce acerola e os frutos sumarentos da floresta, buriti e bacaba, bacuri e jabuticaba, jatobá, castanha e maracujá, mangas e dedês...
Voltei ao hotel, Tropical, um ecoresort de luxo, próximo da Ponta Negra.
- Don't perder o pôr do sol na praia! - lembrou o garção, guardando o troco no bolso.
Don't perder as cachoeiras supimpas e a cascatinha do amor, já perto do hotel, amigo...
A selva prega partidas, vale o muiraquitã, o amuleto indígena de fibras e sementes, que orienta e cura, os doentes creem-me milagreiro. Espreita-nos, camuflada, os macacos-de-cheiro, a onça pintada e o tamanduá, araras e tucanos ricos de cor, o pipiar do colibri, pererecas e sapos, reproduzem-se à noite e elas vão na cantiga, cururus, camaleões, jararacas, sururucus e a capivara, oitenta quilos de chicha.
Frutos e sementes constituem a base alimentar dos peixes da Amazónia, a piranha sempre come mais qualquer coisa. O igarapé tem olhos, peixes pulmonados e elétricos, o poraquê, três metros de enguia e de pilha, a anaconda e o jacaré...
O bicho da preguiça, devia ter seguido o conselho. Tochas e lanternas, descemos o rio na noite escura, na gaiola, o barco encimado por um toldo, típico do Amazonas. O velho dizia para me meter com os mais velhos, venha cá ele, apanhei este jacaré de metro nos matupás, o pai pode estar perto e chegar aos cinco... Não tenho grande angular, este cabe bem na moldura.
O rio Negro, deve a cor de chá às plantas arrastadas, o Solimões, barrento e amarelado, provem dos Andes e corre depressa. Beijam-se demoradamente, a jusante de Manaus, o encontro das águas, imiscíveis por quilómetros. O barco para, um copo de um lado e outro, diferentes.
(vão-se rir: a dondoca mussitava, a malta gozava o surubim, o peixe-trombeta. Apontou a Kodak à margem e esta afundou no Rio Negro. Meteu a boca no trombone e soltou ganidos e impropérios pela máquina, mais fácil achar o fundo às Marianas...)
O rio e os afluentes labirínticos são a seiva e a estrada amazónicas. A espaços, uma aldeola, três ou quatro palafitas e um gerador comum. Estamos em junho, fim da época das cheias, os pescadores prometem a S. Pedro. Na casa do caboclo, sopa de piranha e caldeirada, de apapá e jaraqui, no exterior, a pele da sucuri que engoliu o cão. Os miúdos banham-se, alegres, a moleca levanta a pagaia, ruma à escola.
Cinco dias separam Manaus de Belém, vou na onda. Nunca surfei, tanto equipamento para meio minuto de boleia.
Monto a pororoca, quatro metros e trinta minutos de viagem, duas vezes ao dia. Avisam-me dos perigos, aligatores e corais, maus como as cobras...,
Agradeço: é outro incentivo para não cair.
Manaus é cafona, decadente. No último quartel oitocentista, Dunlop desenvolveu o pneumático e a cidade cresceu à exploração dos seringueiros, atraídos por fazendeiros, retidos por capangas. A lei da bala, a mesma escravatura que desaparecera, há meia dúzia de anos, no papel.
A produção decaiu, deslocalizou-se para o sudeste asiático, e pouco recuperou com a invasão japonesa da Malásia.
No centro, ruem os prédios históricos, o antigo Hotel Cassina ainda sobreviveu como Cabaré Chinelo...
O negócio vai mal. A prostituição e os reclamos pela cidade alertam para a AIDS e promovem a camisinha, mas é preciso dar o litro e muita borrachinha, para fazer uma roda de camião.
O brasileiro vive a rua, o caos e o buzinão, os fuscas e os mercedinhos atulhados de caixas, o bate-papo no barzinho Brahma e do Armando, as barraquinhas, legais, eu acho, o tacacá de camarão perfumado de ervas amazonenses, água de coco, happy hour e show de bola no calçadão, flanelinhas, trombadinhas e batedores de carteira, trabalha que Deus ajuda.
O ar, húmido e poluído, asfixia. O som do banzeiro, amazorrado e nostálgico, recorda a belle époque e a Manaus gloriosa...
A Europa no meio do nada, a sala de ópera improvável na floresta, o Teatro Amazonas remonta aos anos de ouro do ciclo da borracha: luxo e ostentação, parisiense à altura como convinha, poltronas bordeaux e champanhe no intervalo; os lustres, venezianos e, no pano de boca, o encontro das águas, aí atuaram Bernhardt e Fonteyn. A cúpula evoca as cores da bandeira, ordem e progresso.
Mitos e ritos, cumpri a promessa, capenguei três quarteirões e derreti-me na Sorveteria Glacial! Picolés e gelados cremosos, melhor os sorvetes de frutos tropicais: pupunha, tucumã, araçá-boi, taperebá, açaí com tapioca; o cupuaçu, é feio lamber os dedos...
O mercado Adolpho Lisboa, em ferro e vidros coloridos, tinge o Rio Negro. Entro pelas tartarugas. Chegam verdureiros e mercadores de peixe, expõe-se, fresco, o tambaqui, o curimatá, o tucunaré e o aruanã de dentes afiados, bicudas, cachorras e piranha. E o rei, o pirarucu, num filete de vinte quilos.
No pavilhão central, o néctar, a doce acerola e os frutos sumarentos da floresta, buriti e bacaba, bacuri e jabuticaba, jatobá, castanha e maracujá, mangas e dedês...
Voltei ao hotel, Tropical, um ecoresort de luxo, próximo da Ponta Negra.
- Don't perder o pôr do sol na praia! - lembrou o garção, guardando o troco no bolso.
Don't perder as cachoeiras supimpas e a cascatinha do amor, já perto do hotel, amigo...
A selva prega partidas, vale o muiraquitã, o amuleto indígena de fibras e sementes, que orienta e cura, os doentes creem-me milagreiro. Espreita-nos, camuflada, os macacos-de-cheiro, a onça pintada e o tamanduá, araras e tucanos ricos de cor, o pipiar do colibri, pererecas e sapos, reproduzem-se à noite e elas vão na cantiga, cururus, camaleões, jararacas, sururucus e a capivara, oitenta quilos de chicha.
Frutos e sementes constituem a base alimentar dos peixes da Amazónia, a piranha sempre come mais qualquer coisa. O igarapé tem olhos, peixes pulmonados e elétricos, o poraquê, três metros de enguia e de pilha, a anaconda e o jacaré...
O bicho da preguiça, devia ter seguido o conselho. Tochas e lanternas, descemos o rio na noite escura, na gaiola, o barco encimado por um toldo, típico do Amazonas. O velho dizia para me meter com os mais velhos, venha cá ele, apanhei este jacaré de metro nos matupás, o pai pode estar perto e chegar aos cinco... Não tenho grande angular, este cabe bem na moldura.
O rio Negro, deve a cor de chá às plantas arrastadas, o Solimões, barrento e amarelado, provem dos Andes e corre depressa. Beijam-se demoradamente, a jusante de Manaus, o encontro das águas, imiscíveis por quilómetros. O barco para, um copo de um lado e outro, diferentes.
(vão-se rir: a dondoca mussitava, a malta gozava o surubim, o peixe-trombeta. Apontou a Kodak à margem e esta afundou no Rio Negro. Meteu a boca no trombone e soltou ganidos e impropérios pela máquina, mais fácil achar o fundo às Marianas...)
O rio e os afluentes labirínticos são a seiva e a estrada amazónicas. A espaços, uma aldeola, três ou quatro palafitas e um gerador comum. Estamos em junho, fim da época das cheias, os pescadores prometem a S. Pedro. Na casa do caboclo, sopa de piranha e caldeirada, de apapá e jaraqui, no exterior, a pele da sucuri que engoliu o cão. Os miúdos banham-se, alegres, a moleca levanta a pagaia, ruma à escola.
Cinco dias separam Manaus de Belém, vou na onda. Nunca surfei, tanto equipamento para meio minuto de boleia.
Monto a pororoca, quatro metros e trinta minutos de viagem, duas vezes ao dia. Avisam-me dos perigos, aligatores e corais, maus como as cobras...,
Agradeço: é outro incentivo para não cair.
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