sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Cena # 1106 - Finalmente...

Parque de Campismo, Toca do Pai Lopes, setenta e sete / setenta e oito. Há anos que nos conhecíamos, aí passávamos as férias e os fins de semana.
À época teria dezassete anos, era o mais novo do grupo...

Namorávamos, circulávamos pelas roulottes e tendas, saíamos para o filme da velhinha Esplanada, antes dos indianos e da malta que dá o nó com o material açambarcar os cartazes e, à uma da manhã, rumava-mos ao pão quente da Fonte Nova, com o pacotinho de manteiga no bolso (e acabávamos de caganeira, acocorados no estaleiro, antes do parque).

O meu primo Paulo, dois anos mais velho e cinco mais sabido, convidou-me para irmos beber um copo, dançar e, quem sabe, além dele, assistir aos travestis.,
Alguém conhecia o proprietário, tudo marcado, nós mais elas igual a vinte, pensei, isto é melhor que a casa da Rosete, são só sete, ninguém se mete.

Recordo a sala ampla, boa assistência e, certamente por deferência, os lugares reservados junto ao palco, um pequeno triângulo, encimado por projetores multicolores, num dos cantos da sala: sentei-me num banco, ao lado da namorada do momento, o copo na mão disfarça a ansiedade.

Sala apagada, luzes, muitas luzes só no palco: deslumbrante de saltos altos e ligas, menos minissaia e mais maxicamisola, mamas que nem uma charolesa, óculos retro e peruca ruiva, e ei-lo, dois metros e mais outro tanto de Guida Scarllaty !
Mexia-se como poucos e pouco como muitas, libidinosamente com o indicador maroto no lábio e a percorrer lentamente o corpo, batida a condizer...
A malta aclamou, e devia eu ter clamado pela porta de emergência, de resto,

Pisou os degraus no meu sentido e abancona no meu colo: fingi normalidade, Olha-me esta, esta cavalona em cima de mim, faz ginástica mental,
- Aguenta firme, cinco minutos e este inferno acaba e a  passarinha pousa noutro lado!


Mas o inferno era o calor que me percorria o corpo e me asfixiava, de cima para baixo ou vice-versa, sei lá se corei além do vermelho vivo dos seus lábios que me cobriam, pior,

Tomou-me a mão e pediu aplausos, a malta batia com mãos e pés...
Subimos ao palco: abraçou e segredou-me,
- Tira-me o vestido, por favor...

Mas qual quê,
Com as pernas e as mãos a tremer, a história dava pano para mangas: creio que foi mesmo a Guida que abriu aquele maldito fecho!
Que aflição!, Um gajo cheio de músculo, convidaram-me para os comandos  e para os páras e eu queria voar dali e passar à reserva territorial, macho assumido, pois mal, sofri KO, às mãos de um travesti !,
Apaguei, não sei como aterrei em Setúbal.




Há dias, perguntei ao meu primo se recordava este episódio...
Minutos depois, o seu sms esclareceu: "Sim, fomos com o Luís Meneses e o Rui Martins, mais o resto da malta. Eram os casais mais velhos que conheciam o local e essas gentes. Foi no Finalmente. Tínhamos tudo combinado, não nos apercebemos que a Guida durante o espetáculo, ao sacar-te para dançar, combinou contigo que o despir... De modo que, quando isso aconteceu, pensámos que tinhas começado a desatinar, e a despir e a bater no gajo... Foi IMPAGÁVEL !"

Ah, sim?,
Deves-me uma, cabrão!




1 comentários :

PVM disse...

Adorei primo. Excelente descrição. Foi uma noite épica! Nunca irei esquecer o pavor com que nós ficámos quando te vimos arrancar o vestido ao marmanjo. Sempre pensámos que te tinhas começado a passar com o gajo. Foste um ótimo parceiro para um grande príncipe/princesa, mais do que dos travestis, da comédia, teatro e espetáculo.

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