sábado, 3 de novembro de 2018

Cena # 1926 - Manda quem Pode...


O meu pai,
Homem inteligente, culto: muito culto e excelente médico, capaz de inigualável generosidade e de discutir por vinte e cinco tostões: defeitos todos temos.,

O meu irmão imitava todos os seus gestos, exceto no estudo. Em tudo o resto, e (não) era fazer pouco, fazia-o na perfeição. Ou quase...:
Pedia para empurrarmos o Toyota laranja da minha mãe, enquanto girava o volante e gritava vrum, vruuum: o meu pai não fazia isto.,
Foi  sem surpresa, exceto aos motoristas dos Belos que circulavam na Nacional 10, que destravou o boca de sapo e quase nos entalou, a mim e ao meu primo enquanto jogávamos à bola no quintal, e aterrou com aquelas duas toneladas no meio da estrada, frente à Shell: o meu pai não foi à bola...
Ficámos aterrados. Ele entalado, com o velho.


O meu pai era desconfiado: tão desconfiado que antes de se deitar apontava as notas e moedas que tinha na carteira.
E o meu irmão fazia o mesmo! Nem precisava, tinha tanta sorte como isto: ganhara dois mil, por erro do banco a seu favor, era dono de uma casa na Luísa Tody (e preparava-se para adquirir uma segunda) e como a sorte protege os audazes, era bonito, mais por dentro do que por fora mas, ainda assim, conquistara um segundo lugar num concurso de beleza...
Na carteira, exibia notas várias, e de quinhentos à patada! Antes de deitar, tudo apontava e conferia,

Era doutro campeonato, até ostentava uma licença que lhe permitia sair da prisão: o Monopólio dava para tudo, nem o velho competia com ele!




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