Lyon é ocre-amarela, amêndoa e rosa velho, encimada pelos telhados de cinzentos, mesclados. Curiosamente, foi salva pelas guerras: há um século, alguém a pensou moderna com destruição de todo o património renascentista! Apenas Veneza a supera.
Respira, é também verde! Desço pelo ondeante Chemain du Rosaire até ao Vieux-Lyon e à bouchon, repleta de gente e mais barulho. Escolho o pot-au-feu, o taberneiro traz-me a tábua de queijos, agarra e cheira-os, um a um, explica-mos. Beaujolais, pois claro!
Lyon tem uma alma, as traboules, as escaliers e os átrios da velha Lyon...
As traboules são passagens cobertas que permitem a passagem entre edifícios e de uma rua para outra, ou outras mais abaixo, sem nunca ver a luz do dia. Intrincam-se numa teia de túneis, mais de trezentas, pelo menos as conhecidas... A longue traboule, inicia-se no 54 da Saint Jean, serpeia pelos pátios de quatro edifícios e sai no 27 da Rue du Boeuf! Perto, o relógio astronómico bate horas e, quatro vezes por dia, a bonecada de madeira, sai da casca, em ferro forjado.
Nas casas, outrora senhoriais, um estreito corredor conduz ao pátio, central e quadrado, sobre o qual pendem cinco lanços de varandas, em tudo iguais; a um dos cantos, sobem as escaliers, en colimaçon (em caracol) e dérobés, secretas...
Muitos lioneses se livraram da forca dos guardas revolucionários e salvaram o canastro neste labirinto: o Conselho Nacional aí resistiu, Jean Moulin acabou nas garras do açougueiro Barbie, "a França devia estar-me grata e inocentar-me", há gajos com lata para tudo, o escorpião pica-se, morreu envenenado no próprio sangue!
O coração de Lyon bate na Presqu'île e na movimentada Republique que liga a Bellecour e o Rei-Sol ensombrado por Zaratustra, o que seria da tua felicidade não fosse aqueles a quem iluminas?, ao Hôtel de Ville e à fonte de Bartholdi, conhecido além- Atlântico, a iluminar o Hudson.
Trompe-l'oeil, encham o olho: o fresco do centro hospitalar, o muro existe, o paraíso, não, Pinel, Jung e Freud e a lição de psiquiatria, delírios no Rembrandt, le Mur des Canuts e du Cinéma, a Cinematographie dos Irmãos Lumiere, tout les jours, dimanches et fêtes, cai o pano na Cour des Loges, a Biblioteca, as janelas a servir de prateleiras, Sorel e Stendhal, Rabelais e Pantagruel, Julet: "Dans la rue òu tu marches avec la crainte d'être pris en faute, à tout instante tu verifies si ta veste el le col de ta chemise sont bienboutonnés, et il t'a fallu un long temps avant que tu oses entrer dans un café, un temps encore plus long avant que tu ne risques à pouser la porte d'une libriarie."
Teatros de bonifrates e Mourguet, o criador de Guignol, a marioneta que distraía a petizada do "arrancheur de dents", deixo, desiludido, o café, um coração desenhado em canela e eu babado na rapariga de olhos verdes até perceber que ao preparar o café, o faziam com o coração, para todos os clientes...
Fiz-me à estrada, o artista que não conhecia pente, desenhava, a giz, uma enorme Virgem, no alcatrão. Contornei-os, desqueixolado e a olhar para trás, pontapeei, sem querer mas com determinação, a lata de moedas, maldito beaujolais,
Lembrou-me o filho da puta mais o cabrão a família, a mãe e a mulher: deve ser a dele.
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