Foi mentira, mas é verdade: à altura(,) não tínhamos dinheiro para mandar cantar um cego...
Está escrito, passámos por dificuldades: limitávamos as saídas e as proteínas.
A minha mãe viu-se de repente a braços com três adolescentes, quando o meu pai deixou a casa,
- O teu pai é uma joia., Mas tem repentes...
Cursava o primeiro ano de Direito: amanhou um currículo e implorou trabalho no Liceu. À tarde enfiava os chinelos para as explicações e para os trocos e, meia-noite, retornava da Cidade Universitária, apanhado o 31 e o autocarro da Praça de Espanha, para Setúbal.
Valeram-nos os amigos e a casa de penhores da Almirante Reis. O Júlio, o Manique e o Abílio, invadiam-nos a casa de géneros que, juravam e não era um de abril, lhos haviam oferecido. O Hélder, da mercearia no Montalvão, enfiava mais um cabeçudo e uns enchidos no saco a troco do sorriso e trocava por dinheiro o cheque do fim do mês. Fiado.
O gerente do BNU confiou e fiou,
A Aurora, que trabalhava na Segurança Social, desencantou o cheque-balão de oxigénio de cinquenta contos: deram para vir à tona, respirar.
Devemo-lo a ela, e ao Estado: a todos.,
Foi o estado a que chegámos.
Perdemos coisas para o prego, se perder coisas é perder coisa alguma,
Ganhámos amigos, estes e outros: balanço positivo.
O meu irmão, com dezasseis anos, saía às seis, para polir lentes na Iola,
A minha irmã, gêmea dele, saía antes dele. Gastava meio ordenado, para trabalhar em Alverca.
Troquei o primeiro ano de Medicina pela caixa do banco, do Fomento, na cinco de outubro.
(um contrato de seis meses, e depois?: lecionei durante anos em tudo o que era escola de subúrbio e daí proveio o dinheiro do curso. As pessoas desconhecem-no...)
Eu sou Natal e chegada, a minha mãe um de abril e as partidas inventadas:
Invadidos pelos espanhóis, acabaram os carregamentos de caramelos e as garrafas de Marie Brizard envoltas na roupa da bagageira do R16,
O meu pai a voar no boca de sapo, babado pela lasciva brasuca que, pensava e mal pensou, lhe telefonara para o domicílio, ela a rir a vê-lo passar e ele passado a ver navios,
O meu tio Agostinho convertido e essa até era um de abril no Jornal do Incrível,
Os filhos e os bichos do zoo, que na altura se lhes contava as costelas, e o burro esfomeado que engoliu o leão, tudo a minha mãe inventava!
Momento alto: quando vendeu ao Hélder os limões do quintal vizinho e lá apareceram, ele com o balde a trepar a árvore e a polícia à cova, e ela a rir da varanda...
Foi numa quarta de chuva, e vão mais de trinta anos, que o plano ganhou forma: entrado com a minha mãe na Casa da Sorte, deixou-me o palpite das últimas colunas do Totoloto, fiada na Sorte e no Visconde de Castelões que, coincidência, nasceu no um de abril e que, daí a três dias, era sábado...
Nesse sábado...
Em casa, com a minha irmã, estendi-lhe a chave que inventara, em nada assemelhada às bolas que saíam. Pôs-se à vontade e voltou ao cadeirão. Confirmou o primeiro número em todas as colunas, o segundo, o terceiro e tenho três, Tenho quatro!, E tenho cinco!..., Estamos ricos, riiiiiicos !!
- Vamos jantar ao Duarte!
O meu irmão recusou, logo ele que era o forreta: não acreditou, farto de petas,
- É o que perde,
Não vão comer frango, mais faltava e se faltava, ameijoas a abrir e o cabrito a sair.
Pagou com o dinheiro que não tinha e dormiu descansada...
Acordou, listada de sonhos: vamos?
- Mãe, senta-te., Ontem foi o primeiro de abril...
- Mas como, se os números eram aqueles?!
Não eram.,
É assim: o totoloto é como as gajas boas: só sai aos outros.
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