segunda-feira, 15 de abril de 2019 1 comentários

Cena # 2069 - Ossos do Ofício.


Não sintonizou com a hoverboard: o Marcelo foi ao chão, e partiu o rádio.
O Simão:
- Dá dor?
- Claro, Simão, ele partia bem sem coisa nenhuma.
- Então, é isso, um radiador!




sábado, 13 de abril de 2019 0 comentários

Cena # 2068 - Amor de Pai.


Há gente que marca:
Chegou à mesa de autópsias, encardido: foi encontrado morto junto à garrafa, envolto em fezes, os filhos cagaram nele. Há anos que não o viam, nem ele, sabão ou máquina de barbear.

Bem suturado, esfregado e lavado com champô, penteámos e barbeamo-lo. A funerária trouxe um fato bonito, sapato a condizer, gravata riscada...



Chegou a família(,) por obrigação: recusaram levá-lo, não o reconheceram.,
Arregacei as mangas, mostrei-lhes a tatuagem, no antebraço: Angola, Amor de Pai.

Era ele.,
Foi preciso morrer, para ser reconhecido. Hoje vai ter gente, e um dia bonito.





quinta-feira, 11 de abril de 2019 0 comentários

Cena # 2067 - Falsa Partida...



Ora viva!

O António delirava,
- Éramos a quadrilha, desde que um grupelho de (analfa)betos nos vedou a entrada na festa: não queremos cá gente dessa!
A quadrilha: o Eduardo, eu: o António, o Luís e o Pedro, o Paulo, o Carlos e o Vítor. Mais tarde, entraram o Zé e o João Dois que valia por três,
Nove para dez: a hora do funeral da Professora Amélia.,

- Chumbou-me no sexto ano do liceu, vê tu, a mim que lhe prometi que para o ano é que era, e a outra meia dúzia que sabia mais do que eu!
Foi ideia do Luís, prega-lhe a partida. Literalmente...,


Corria o ano de setenta e seis,
- Era um dia escaldante de julho, mal nosso e dela: a roçar o cu pelas paredes, assentou a pandilha em simular a morte da Professora Amélia...

O Pedro era vizinho do Armindo dos Caixões, conhecia-lhe o número de casa: o Luís identificou-se como marido da falecida, chorou baba e ranho, e foi direito ao assunto,
- Caiu no chão e não reagiu: foi de caixão à cova!
Quase se enterrava quando lhe perguntaram na altura, a altura para o caixão: o Luís escapou, Tenho lá cabeça para isso!, Um metro e sessenta, mais faltava, não chegava.

- Corremos para o Bairro do Liceu e à casa do Zé, azar dele, todos os dias dava com ela de trombas: chegou o carro funerário, a polícia e o médico e só recordo o ar embasbacado da Professora Amélia, à varanda...,

Além(,) disso, não há nada,
- É cá, Amélia: cá se fazem, cá se pagam…











quarta-feira, 10 de abril de 2019 1 comentários

Cena # 2066 - Sinal dos Tempos, Puseram o Lucky Luke a Engolir a Palhinha:



:Ainda apanho com a comunidade gay em cima: salvo seja,


O maricas faz questão de dar no olho, sob o olhar do Bocage. Chapéu de palha e o rego ao léu, não lhe cabe a palhinha. Conhecem-se todos, será da sombrinha: ao primeiro sol apanham o ferry,
- Vais para Troia, Tozé?
Sim, para o bico,
Das lulas,
- Vê lá, estás com inveja, trago-te uma alforreca...

Que importa?,
Dão para os dois lados e, à falta do comboio, correm para o barco: o Bico é deles.,
Exporta que gostam de dar nu olho, e nem fazem a coisa por menos, nas dunas: chapéu de palha e coco ao céu, é seu e mais do outro, cabia-lhe a palhinha de satisfeito, a dois passos da rebentação...
Aconteceu há quinze dias, indiferentes e por trás(,) todos os santos ajudam.

A dois passos da rebentação,
Agarra-te ao pau: é bem capaz de te trazer a alforreca...







segunda-feira, 8 de abril de 2019 0 comentários

Cena # 2065 - Histórias de Nova Iorque.


No avião, as testemunhas da Sheep's Meadow Church bem se aprimoraram para me impingir um deus qualquer. Chegam tarde, burro velho não conhece suponhamos que e um dia vais ver, ver o quê?, mais duas horas, convencia-os eu. É verdade: o meu irmão Paulo, devoto e o bom feitio do rebanho, que até tocou o João Paulo, foi o primeiro a partir. Deus quer lá rufias!

Gosto da cidade, detesto o 'umbiguismo' dos nova-iorquinos. Os comissários quadricularam Manhattan, onde se dorme, mesmo sem-abrigo e são muitos, mas onde jamais nos perdemos.

O perneta Stuyvesant impôs a missa e a lei seca aos sábados, a décima oitava emenda, de dezanove, trouxe Dutch Schultz, "Bugsy" Siegel e os speakeasies. Longe vai Gotham e os vadios e as prostitutas na encruzilhada de Five Points, os duelos proibidos e a honra lavada na outra margem do Hudson, as charretes paradas no Plaza e as mansões da quinta avenida, o baile dos Astor e a lista dos quatrocentos, a extravagância e a estragação do último quartel oitocentista.
O circo Pepe e as bizarrias de Barnum, o Homem-Espetáculo, deixaram a cidade, há quem recorde os home runs do "Babe" Ruth, Joe Di Maggio e Marilyn, o "Babe" e a Chanel casaram os cincos, Faulkner nos canecos, no Chumley's, Bilie Holiday, no Society, o Apollo e o melhor jazz do mundo no Cotton, no Harlem, Bessie, Duke e o piano de Cab Calloway, as coxas abonadas das Rockettes e as sex-shops da Times Square, o Hair e os hippies, no Central Park...

Há yuppies no Financial District e workaholic um pouco por todo o lado, caixas de vidro na Lower e na Midtown, o Empire e o soberbo Chrysler em art déco, com capots e tampões, enfim, o maravilhoso inferno de Le Courboisier, o Flatiron, o agoirado ferro de engomar, o ferro trabalhado nos varandins do SoHo, a degradada Alphabet e o cano da pistola, distorcido, frente às Nações Unidas, um tiro no pé.
Visito a Igreja da Transfiguração, tudo como Dante, let´s bomb Hanói!, Mob, son of Sam, de volta aos comandos da American Airlines, o crash de vinte e nove e o de dois mil e um, quem dá, às vezes também leva, é a guerra.
Há animais, também no Bronx, o gato que ri e Imagine, no Central Park, bilhetes pela metade para os musicais da Shubert Alley, na tkts, concertos no Madison e no renovado Apollo, ópera no Lincoln e Placido Domingo nos táxis, a lembrar o cinto...
Mergulho no Cyclone, riem-se as sereias na feira popular de Coney Island, as pás do Fletcher deixam o Pier 17 e pôe-se o sol na ponte de Brooklyn, janto marisco fresco, em Long Island.
Prentzel estaladiços e bolas de falafel, gastronomia mexicana, afegã e libanesa, massas e S. Gennaro, na Mulberry St, Little Brazil e Koreatown, bodegas e o chinoca a espetar-me com a rã viva, no prato, ainda queria quinze por cento de gorjeta para o galão, aqui, trotil!
O meu amigo António é que lhes tira as medidas:
- Os gajos vêm com o fish'n'chips, mais os franceses com o gourmet e a nouvelle cuisine, mas chegam cá, comem que nem uns animais e até passam a cagar verde!

Melting pot: dragões e lanternas, cabines em pagode e jogo a doer, em Canal St, os irlandeses na Lower East e a Kleindeutschland, a numeração das ruas do Queens, vejo-me grego e há-os lá de sobra... Os porto-riquenhos e cubanos expõem nas bancas de La Marquetta, trezentos anos do stamp act e tudo tem o selo, regateei a camara de vídeo mas nem sonhar "esquecer" o recibo... Tranças hassidin e quejaria amish, abóboras e caveiras sorridentes a descer a Halloween Parade, na Village, os gays em Chelsea, pride in the name of love, afro-americanos na Martin Luther King Av e gospel dominical na Abyssinian, egípcios no museu de Brooklyn.
No Met, o cubismo e a persistência da memória a lembrar o Guernica devolvido, Ray e Cartier-Bresson, no Moma, Hopper e a Bauhaus, no Whitney e o momento alto para o tuga, no American Museum of Natural History, encostado ao T. Rex, garras afiadas para o boneco e ignorando o "don't touch" por todo o lado... Sirenes, guardas, mil desculpas, não vi, não sei inglês, sou um cretino, uma criatura do jurássico inferior!

Na última vez que deixei a maçã, o bilheteiro creu-me mãos-largas: esqueceu o Forreta e arbitrou o Jorge com o Carvalho no fim, com o V em falta...
Não valho um, mas ainda conservo o caralho do bilhete!















 
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