terça-feira, 19 de março de 2019 0 comentários

Cena # 2049 - O Infalível Método da Temperatura...


O Ervilha nunca falha.,
Nasci em sessenta, tenho vinte e nove em cada perna, mais coisa menos perna. Os meus pais eram casados,
Cada um à sua maneira...
A pílula chegou a Portugal em sessenta e dois, a coisa aqueceu, falhou o método da temperatura: àqueles tempos, filho ilegítimo e é legal, três quartos da pequenada nascia no outro quarto da casa.

Cresci com a farinha 33 e a gemada com vinho do Porto ao pequeno-almoço, cuidassem os meus pais e tinha mais do metro e oitenta e três,

Desafio: ver quem faz mais longe,
Tocar às campainhas e fugir na noite, limpar o ranho às mangas e ralhar com os miúdos por fazerem o mesmo,
Sete e quinhentos no barbeiro do Rio da Figueira, colado à olaria e voltava pelo canavial, com o novo comando para a televisão,
A gaita do amolador, as vasilhas do leite, vendido à porta.

A Twiggy rabicurta e a rabuda do Guedes, corados a pedir-lhe mais vinis para nos virar costas, o mundo na View Master, a Garganta Funda e o pau espetado no meio do Casino Setubalense, Gazcidla, light my fire, je t'aime moi non plus...

Ie-ié, ia a pé para a Academia, lápis de cor da Grão Vasco e reguada, o jogo do burro e o Mikado, a chave-palito da conserva de sardinha e que bem que sabia com o feijão-frade, Laranjina C e Bussaco, a Volta,

O meu tio Agostinho, a carica e o Eddie Merckx, uns Sanjo e três toques na chicha e já era o pé esquerdo do Jota Jota, o Ruth Malosso a fintar os lagartos, o químico do totobola e o 13,
O trevo da sorte e Brancanes, a fugir, serra abaixo, de aranhas venenosas e perigosas lagartixas,

O Zé dos Gatos, a Pantera e o Franjinhas, a Eurovisão e a Miss Cavalo de Pau, tainha do Sado,
Os saquinhos de serapilheira do carnaval e o Finura, a Popular e o Castelo Fantasma, os santos e os saltos na fogueira, o Judas e os rebuçados mal amanhados da taberna,

O escudo, as pesetas e os caramelos de Badajoz, o anis escondido e o whisky martelado de Sacavém que as visitas juravam verdadeiro...
Verdade ou consequência, os beijos inocentes e as cartas de amor...

A Bic, os furos e as bolinhas às cores, o bronzeador e a cenoura da praia, os rolos de fotografias, os telefones de disco, os discos e o mata-fome,
A carcaça aquecida ao domingo,
Os pratos e os talheres desencontrados e aproveitados, a RTP TV rural, o caetano e as conversas em família sem ele, a alcatifa e as paredes de cor garrida, os guaches da Viarco.

O meu pai era o Prof. Karma quando apontava o mindinho, o dedo que adivinhava! e eu caía que nem um patinho...
Que sova quando roubei os carrinhos no Pão de Açúcar, ele e eu sem pena!
Bem dada, levei para contar, é o que faço,
Mussitei um calão, queria assinar mas saía-me o seu rabisco, envergonhava-me o pé grande e não ser bonito,

Quem o feio ama, o Anglia lhe parece, mais o Renault 10 que o velho insistiu cor de café com leite, o meu irmão a dar à língua para sacar o catálogo do NSU,

A bola, vira-se o bico ao prego e esconde-se a fisga, o Natal de 69 e a bicicleta mais rápida do que a CB 750, Omo lava mais branco, o preto às voltas com a cadeira e o Paulo com as notas, fechavam os bancos e a torneira à sexta,

Fim de semana, Torralta e paixonetas, a Casa das Manteigas e as esculturas de banha no talho do Palmela,

Óleo de fígado de bacalhau, lâminas de cortar a barba e a respiração, a esperança de morte aos sessenta: nada é Definitivos,
Paris e o Último Tango sem filtro, o catálogo do Solnado, a amigdalite e a seringa que metia medo ao susto, está lá é da guerra?, adeus, até ao meu regresso, talvez com o magala deitado
E a malta queixa-se...


Nasci com o cu virado para a lua.
Havia Madalena Iglésias, ele é bom rapaz e a Simone, outro galo cantava,
Quem faz um filho, fá-lo por gosto...
Falos e temperaturas à parte,

Sem proveta e com proveito,
Alguém por baixo e alguém a saltar para cima e
- Lá vai alho!,
A vida era assim...


Aos meus pais,
MUITO OBRIGADO.





domingo, 17 de março de 2019 0 comentários

Cena # 2048 - O Estarreja de Quelimane.


I like to spend some time in Mozambique
The sunny sky is aqua blue
(,,,)
Lying next to her by the ocean
Reaching out and touching her hand
Whispering your secret emotion
Magic in a magical land...
                            Mozambique, Bob Dylan.



Esta história ouvi-a ao meu amigo Américo Rocha.,
Por whisky, recordo África e as noites de Quelimane, nos anos setenta,
Havia os especialistas natos, e o Estarreja fez-se a virar vinte copos por dia, e os de rótulo, numa série de quinze marcas, duas atiravam ao lado: fora de sério!

Quelimane era uma cidade pequena: os jogos de domingo do Sport Quelimane e Benfica, as matinés do cineteatro Águia, a escaldante marrabenta ao bambolear dos glúteos, o galã Biriba e o Lalarita, os batiques coloridos das negras, as chamuças do Sulename e o camarão e o caranguejo oferecidas à Laurentina, os palmares, os maiores do mundo!, as almadias que sulcavam o rio dos Bons Sinais, e o peixe fresco, na cesta, à cabeça...

O Estarreja e o Martins do Muaquia,
Na Avenida Principal, no bar do Meireles, o mais afamado bacalhau assado da Zambézia, contava-se anedotas, whiskies e Laurentinas,
Se sobrava, era para o consultório do doutor Vaz que, resignado, desaconselhava,
- Martins, deixa a bebida, estás a matar-te lentamente...
- Deixe lá doutor, também não quero morrer depressa...






sábado, 16 de março de 2019 0 comentários

Cena # 2047 - As Gajas: Teoria da Evolução.


Azar nosso,
- Isso, elogia-as que não lhes cabe a palhinha! - repreendeu o Faustino - ao menos, não te esqueças da bolinha, no canto superior...


São mais de três biliões de anos e é muito ano desde os procariontes: apuraram o espécime: libertaram-se do espartilho(,) da colher e do avental, mandaram os criacionistas às urtigas e, se Deus criou a Mulher, fantasiamos com a Brigitte e não com os sovacos peludos da Eva.,

Vingaram por seleção natural: melhor adaptação ao meio, já Darwin titubeou em incluir o Homem (sexo masculino, bem entendido) na escala evolucionista, por antever o fracasso: teve dez filhos, mesmo se embarcado no Beagle com ela em casa e embarcou nisso: subestimou a lei lamarckista do uso e desuso e alguém se aviou em terra.,
Estava dado o primeiro passo na emancipação do gajedo: exigiram o voto, Chaplin às voltas com os tempos modernos e elas, pé ante pé e estavam no joelho pelo Charleston: não impusesse a Mary Quant um ponto final no comprimento e a coisa ia na maxicamisola.
(via-se, sem Rx, os fémures da Twiggy, esta sim nascida da costela de Adão)

O prêt-à-porter e as pin-ups: o homem a babar-se e elas prá frentex que é o caminho, as barricadas e a pedrada no Quartier Latin e o Jean-Paul a braços, e só tinha dois, com o segundo sexo da Simone.,
O flower power: o Verão do Amor e do ácido, os Mamas & Papas mesmo com a Enovid, tendas e amor livre na lama sob a chuva torrencial de Woodstock: empataram, no final dos 60.


Estudam e valorizam-se, são elas que enchem as faculdades: pulam cargos e a cerca, ultrapassam-nos no QI e na CB: na conta bancária, apontam o dedo e mandam num gajo, é o mundo ao contrário, o preto loiro e o branco da carapinha do restaurador Olex. Um destes dias, devemos a justificação em casa do casaco de peles que a patroa ofereceu.
Somos uns trouxas: parámos na bola e na bifana, e até eu mudei: às boazonas prefiro as boazinhas,

Se quiserem, numa adaptação aristotélica: o ignorante despeja a imperial e afirma. Elas duvidam e refletem. São calculistas, Leibniz e integrais e nós dois mais dois, às curvas e à tangente.


Esqueceram útero, ovários e fecundação e invadiram o território do macho: reivindicam o prazer, bis e masturbação e aí foram mais longe: se começaram tarde, há muito que adotaram a técnica digital e nós agarrados ao manual...

E pronto, por sorte tenho três rapazes: já os vejo em casa, a coser meias.,
E a viver dos rendimentos.


sexta-feira, 15 de março de 2019 0 comentários

Cena # 2046 - Em Linha Reta, de Beethoven ao McDonald's.


"Se Rossini tivesse apanhado na infância, seria um grande compositor."


quinta-feira, 14 de março de 2019 0 comentários

Cena # 2045 - Diz que Vê Coisas.


Doutor,
- Peça aí uma TAC à cabeça, para ver se o demónio já saiu…




terça-feira, 12 de março de 2019 0 comentários

Cena # 2044 - As 8 Escravas.


O meu pai dava tudo. E tirava tudo, no minuto seguinte.
Despachou a bica e a conversa com o Freitas da Brasileira, enfiou dois maços de Paris no bolso e correu à ourivesaria antes de subir ao consultório.
Chegou tarde para a favada com o chouriço mouro, o único pitéu que bisava. Trazia um presente para a minha irmã, as sete escravas em ouro que cobiçava e jamais ousaria pedir. Eram lindas!
(uma das escravas abrira, o ourives recebeu-a)

O Paulo não tinha o sangue na guelra, mas sempre passava algum nas carótidas, ao ponto de entregar o ouro ao bandido quando este lhe encostou o facalhão, perto de casa. A Paula lembrou a radial e engavetou as pulseiras. Meses depois, passeava com a minha mãe pela baixa, entraram na joalharia.
- Mas já a levantaram...
Mais faltava, e faltava aquela - reclamaram - trampolineiro, impostor, deveria devolvê-la!
Assim o fez:
- Para não perder o cliente...
- Claro e eu tenho um 'O' na testa, maldita falperra mais este parlapatão falinhas mansas, a afiambrar-se à argola!...


Já o escrevi, passámos mal, era o tempo da bifana e do prego: o almoço fora, a bifana na Adega dos Passarinhos, o prego, as casas de penhores da Almirante Reis e de Campo de Ourique...
O agiota olhou as escravas. Rebusnou qualquer coisa e afastou uma delas, irritado:
- Empresto quinze contos e pagam adiantados os juros. Esta é de latão, banhada numa solução dourada...
Banhada, pois.

As escravas não voltaram, não enchiam barriga. A Paula passeava, despreocupada, a argola de latão. A outra, a verdadeira, de ouro, apareceu dias depois, tão embrulhada como alguém a trouxera da ourivesaria.
Ladrão que rouba a ladrão...
Não se descoseu:
- Ora, fosse muito sério, não fazia aquilo. Nunca mais lá volto!









domingo, 10 de março de 2019 0 comentários

Cena # 2043 - Essa É que É Eça.



Gosto de comprar nas feiras de velharias, vinis empoeirados e cartapácios que empoleiro no escritório,
Este achei-o no mercado das pulgas,
Gazeta Medica de Lisboa, Anno 1855.

Reza, assim,  o
Relatorio e estatistica dos Hospitaes de S. José e de S. Lazaro, no anno civil de 1852, consta de 8:182 doentes,

No periodo de 91 annos é o que dá menor numero de doentes, porque são poucos; mas se no periodo, que comprehende os primeiros 7 annos de vida, se acham poucas doenças, não é porque na infancia não hajam mas porque entre nós ha a necessidade de restringir, por meio de certas formalidades de responsabilidade de terceiro, a admissão dos infantes, que não poucas vezes, depois de entrados no hospital, são esquecidos e abandonados por seus paes, a quem a miseria e a pouca cultivação de espirito faz pensar que os filhos são um pêso de que muito se desejam livrar, sem ao menos se lembrarem do apoio que delles poderão receber na velhice e nas enfermidades,

Nos homens predomina o temperamento sanguineo e a constituição robusta, e assim deve ser, porque pertencem á idade da força e do vigor
(posto que esteja convencido, que em geral não é o temperamento sanguineo o mais predominante no paiz mas, sim, o temperamento lymphatico e o bilioso)
As  mulheres são lymphaticas e de constituição delicada,

Quasi que a totalidade de estrangeiros são hespanhoes pelas circumstancias especiaes do nosso paiz aonde faltam braços,

Acorreram çapateiros, chapeleiros e penteeiros, alfaiates e albardeiros, operarios da fabrica de rapé,
ferreiros, arameiros e chumbeiros, espingardeiros, picheleiros e funileiros, cutelleiros e amoladores,
carpinteiros, serradores e surradores, correeiros e cordoeiros, escoveiros, palheireiros e esparteiros,
calceteiros e pintores de broxa,
tecedeiras, linheiros e estampadores de chitas,
criados e criadas de servir, lavadeiras e trapeiras...
E mais,
mendigos, eclesiásticos, musicos, escreventes e mestras de primeiras letras, barbeiros e um cirurgião,
adellos, vendedeiras e meretrizes, cautelleiros e vendedores de sonhos, aletrieiros e areadores de assucar, chocolateiros e licoristas, fabricantes de bonecos e de velas para navios, calafates, commerciantes de sola e de tamancos, tambem la bateram a bota...

"Não se pense, porém, que se tratou de 8:182 doenças em outros tantos individuos diferentes; alguns, e não poucos, pelo mesmo estado morbido, ou não curado, ou renovado, tiveram 2, 3, 4 e mais entradas  no hospital; mas nos mappas considerei cada papeleta como um caso especial, e ainda que fôra muito conveniente o notar quantas vezes um mesmo individuo entra no hospital com a mesma doença, ou com outras que tenham relação com aquella, confesso que só com muito trabalho e difficuldade se poderia imperfeitamente conseguir o ter conhecimento disto, porque em 4 ou 5 papeletas, que pelo todo se sabe pertenceram ao mesmo individuo, não se acham 2 que sejam identicas em todos os dizeres que lhes respeitam; porque os doentes, por dolo e para fins particulares, dão trocados os nomes, idades, estados, filiação, moradas, profissões, etc..."


Ao tempo, reinava D. Maria II nas moedas de V Réis,
Cartistas e setembristas,
A Maria Bernarda, a critiquice e a reinação não mais pararam,
Acordou-se no desacordo Ortográfico, e tal pouco importa,
Pior: perdeu-se a Palavra,

Essa é que é Eça.



sábado, 9 de março de 2019 0 comentários

Cena # 2042 - Escravos em Nós.

O papalagui:

Inventa máquinas de lavar e perde o tempo a lavar a roupa suja,
Projeta carros que dão trezentos e trezentos euros de multa,
Cria androides. Queria não fazer nada.,

Cria, para poupar tempo, mas tempo é coisa que o homem branco não tem...
Mais e mais, somamos coisas: somos escravos, reféns de coisas.




Sou burro, estou do lado de lá: tomei as dores de Singer e do cavalo, abraçado por Nietzsche,

Hoje, no consultório:
A Arminda é ordenhadora, ordenadora de nada,
Vão-se os sábados e os domingos, as férias: os bichos não tiram,
- Sou uma escrava dos animais...

Nunca tinha pensado nisto,
Sou burro, moro do lado de cá, (no) bem-bom: viver à mama não é o que parece.

Não, Rousseau: o homem nasceu para ser escravo.




sexta-feira, 8 de março de 2019 0 comentários

Cena # 2041 - Be My Valentine,



O amor repara tudo, até um miocárdio desfeito,

- Alguma vez foi operado?
- Sim, ao coração., Levei duas facadas...
- E ficou tudo bem?!
- Sim, casei com a pessoa que mas deu!!



#deep
#shuttotheheart
#amoteleonor
quinta-feira, 7 de março de 2019 0 comentários

Cena # 2040 - A Companheira de Bula...


Já sem os três, abalou o Vitorra com a Luizinha do Caneiro, mais as histórias com ela.
À mesa, ficaram o Choco e o Sesimbra, bom bom era ao tempo das colónias, perfumadas de chocolate negro. Lembra e relembra-me a Domingas, lavadeira e criada para todo o serviço...

As lavadeiras passavam de mão em mão, acabada a comissão,
- Era um privilegiado...
Chefe do depósito de géneros, em Bula, detinha a chave do armazém e comia mais do que os outros: pagava em géneros.

As pipas de azeite provinham de S. Vicente, cada com cem litros. Sem.,
Emprestou a chave ao Girafa, troca de favores: atestou de azeite a garrafa de Cuca. Mais, à sucapa, esburacou uma e outra (,) pipa e introduziu a borrachinha com que extraia o precioso liquido...

- Quando dei por mim...
Tanta nochada deu o animal, a vinte e cinco por Cuca e façam as contas, que voaram trezentos litros do armazém!
- A Companhia mandava vir...

Um por todos e todos pelo Girafa, não te queixes Girafa da companhia.


quarta-feira, 6 de março de 2019 0 comentários

Cena # 2039 - O Marreco, da 7 e Meio.


Azar é um gajo cair e
Deu a coisa para o torto que ele há coisas do demónio: torci o outro joelho, é melhor do que parti-lo.
Por uns tempos tenho os dois joelhos iguais, o direito, torto, e o esquerdo que não está direito.


Lembrei-me do marreco, que a tuberculose vergou ao metro e meio: era louco pela mota, uma Kawa sete e meio, verde. E se acelerava!, deitava-se sobre a mota, para o vento não o levar.,

Um dia,
Aterrou na 5 de Outubro, frente à Moagem, a Kawa sete e meia num oito, acelerou mais do que ele,
Resultado: o camelo entortou as pernas e corrigiu parte da bossa.

O Marreco trabalhava no hospital e não lhe conhecia mulher ou filhos: talvez por isso, achou por bem tirar umas férias no hospital: vá para fora cá dentro,
- Enfermeira, estou farta desta merda!, Quero sair, quero almoçar fora!

Conheciam-se, a enfermeira satisfez-lhe o pedido: transportou-o na cama para a varanda do Outão, e pôs a mesa ao lado.
Assim ficou o Marreco, deitado, a ver navios. E mais não viu, porque o tombo corrigiu boa parte da corcunda.







segunda-feira, 4 de março de 2019 0 comentários

Cena # 2038 - É o que Parece...


Sou um vadio, assumo: pisgo-me para o laré. Sinto-me no café, demoro-me com os miúdos e nas pessoas que passam: adoro gente.,

Combino receitas nas esplanadas, observo ninharias. Tenho tempo: há anos trabalhava quinze noites em trinta, pisava a casa urinava e demarcava o território, sem alçar perna.,
Ainda assim, o lar as consultas e as juntas mais as autópsias(,) e os que vão tiram-me uns bons anos de boa vida.



Há uns dias, surpreendi-me com o Raimundo, há dois anos de baixa e na baixa: na Baixa de Setúbal, entenda-se. Há anos que nos cruzamos, cumprimenta-me de jornal na mão. Pensava no que faria, se fazia, trabalharia por turnos?!

De baixa,
Escutei-lhe as razões e observei exames gastos: há muito que devia estar a bulir, a dividir por todos custa menos, o sistema permite e o indígena abusa. Quase me desculpei,
- Raimundo, está na altura de ouvir o patrão...

Aceitou com um sorriso. e antes de sair perguntou:
- Você é médico?!
- Há muitos anos, Raimundo...
- É engraçado: vejo-o tantas vezes na baixa que sempre pensei que não fazia nada!


Já somos dois.







domingo, 3 de março de 2019 0 comentários

Cena # 2037 - Antevisão e a Visão do Clássico, pelo Tomás.






#naohadragoesdizosimao




sábado, 2 de março de 2019 0 comentários

Cena # 2036 - E Vão 3 Genros...



Todos com problemas dos cornos, problema deles., 

A filha é uma santa, teve azar com os casamentos: veja bem, doutor,
- Três casamentos e logo três cabrões!!!









sexta-feira, 1 de março de 2019 0 comentários

Cena # 2035 - O Verniz.


  



quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019 0 comentários

Cena # 2034 - A Amazónia e a História da Dondoca que Deixou Cair a Kodak no Rio Negro.


O shuttle deixou-me na avenida sete de setembro.
Manaus é cafona, decadente. No último quartel oitocentista, Dunlop desenvolveu o pneumático e a cidade cresceu à exploração dos seringueiros, atraídos por fazendeiros, retidos por capangas. A lei da bala, a mesma escravatura que desaparecera, há meia dúzia de anos, no papel.
A produção decaiu, deslocalizou-se para o sudeste asiático, e pouco recuperou com a invasão japonesa da Malásia.
No centro, ruem os prédios históricos, o antigo Hotel Cassina ainda sobreviveu como Cabaré Chinelo...
O negócio vai mal. A prostituição e os reclamos pela cidade alertam para a AIDS e promovem a camisinha, mas é preciso dar o litro e muita borrachinha, para fazer uma roda de camião.
O brasileiro vive a rua, o caos e o buzinão, os fuscas e os mercedinhos atulhados de caixas, o bate-papo no barzinho Brahma e do Armando, as barraquinhas, legais, eu acho, o tacacá de camarão perfumado de ervas amazonenses, água de coco, happy hour e show de bola no calçadão, flanelinhas, trombadinhas e batedores de carteira, trabalha que Deus ajuda.
O ar, húmido e poluído, asfixia. O som do banzeiro, amazorrado e nostálgico, recorda a belle époque e a Manaus gloriosa...

A Europa no meio do nada, a sala de ópera improvável na floresta, o Teatro Amazonas remonta aos anos de ouro do ciclo da borracha: luxo e ostentação, parisiense à altura como convinha, poltronas bordeaux e champanhe no intervalo; os lustres, venezianos e, no pano de boca, o encontro das águas, aí atuaram Bernhardt e Fonteyn. A cúpula evoca as cores da bandeira, ordem e progresso.

Mitos e ritos, cumpri a promessa, capenguei três quarteirões e derreti-me na Sorveteria Glacial! Picolés e gelados cremosos, melhor os sorvetes de frutos tropicais: pupunha, tucumã, araçá-boi, taperebá, açaí com tapioca; o cupuaçu, é feio lamber os dedos...

O mercado Adolpho Lisboa, em ferro e vidros coloridos, tinge o Rio Negro. Entro pelas tartarugas. Chegam verdureiros e mercadores de peixe, expõe-se, fresco, o tambaqui, o curimatá, o tucunaré e o aruanã de dentes afiados, bicudas, cachorras e piranha. E o rei, o pirarucu, num filete de vinte quilos.
No pavilhão central, o néctar, a doce acerola e os frutos sumarentos da floresta, buriti e bacaba, bacuri e jabuticaba, jatobá, castanha e maracujá, mangas e dedês...

Voltei ao hotel, Tropical, um ecoresort de luxo, próximo da Ponta Negra.
- Don't perder o pôr do sol na praia! - lembrou o garção, guardando o troco no bolso.
Don't perder as cachoeiras supimpas e a cascatinha do amor, já perto do hotel, amigo...

A selva prega partidas, vale o muiraquitã, o amuleto indígena de fibras e sementes, que orienta e cura, os doentes creem-me milagreiro. Espreita-nos, camuflada, os macacos-de-cheiro, a onça pintada e o tamanduá, araras e tucanos ricos de cor, o pipiar do colibri, pererecas e sapos, reproduzem-se à noite e elas vão na cantiga, cururus, camaleões, jararacas, sururucus e a capivara, oitenta quilos de chicha.
Frutos e sementes constituem a base alimentar dos peixes da Amazónia, a piranha sempre come mais qualquer coisa. O igarapé tem olhos, peixes pulmonados e elétricos, o poraquê, três metros de enguia e de pilha, a anaconda e o jacaré...
O bicho da preguiça, devia ter seguido o conselho. Tochas e lanternas, descemos o rio na noite escura, na gaiola, o barco encimado por um toldo, típico do Amazonas. O velho dizia para me meter com os mais velhos, venha cá ele, apanhei este jacaré de metro nos matupás, o pai pode estar perto e chegar aos cinco... Não tenho grande angular, este cabe bem na moldura.

O rio Negro, deve a cor de chá às plantas arrastadas, o Solimões, barrento e amarelado, provem dos Andes e corre depressa. Beijam-se demoradamente, a jusante de Manaus, o encontro das águas, imiscíveis por quilómetros. O barco para, um copo de um lado e outro, diferentes.
(vão-se rir: a dondoca mussitava, a malta gozava o surubim, o peixe-trombeta. Apontou a Kodak à margem e esta afundou no Rio Negro. Meteu a boca no trombone e soltou ganidos e impropérios pela máquina, mais fácil achar o fundo às Marianas...)
O rio e os afluentes labirínticos são a seiva e a estrada amazónicas. A espaços, uma aldeola, três ou quatro palafitas e um gerador comum. Estamos em junho, fim da época das cheias, os pescadores prometem a S. Pedro. Na casa do caboclo, sopa de piranha e caldeirada, de apapá e jaraqui, no exterior, a pele da sucuri que engoliu o cão. Os miúdos banham-se, alegres, a moleca levanta a pagaia, ruma à escola.

Cinco dias separam Manaus de Belém, vou na onda. Nunca surfei, tanto equipamento para meio minuto de boleia.
Monto a pororoca, quatro metros e trinta minutos de viagem, duas vezes ao dia. Avisam-me dos perigos, aligatores e corais, maus como as cobras...,
Agradeço: é outro incentivo para não cair.












quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019 0 comentários

Cena # 2033 - Trinta Paus. Mais uns Trocos (para o autocarro da Covas & Filhos).


1966: com a ponte, a malta deixou a Linha:

Sessenta e oito, 69, não havia hipótese com a Luizinha do Caneiro, a badalada prostituta de Sesimbra.
Nu areal, a vinte ou trinta congros dos espadartes e dos tubarões-martelo pendurados de cabeça para baixo, à frente do hotel, os pendurados aguentavam vez, enquanto a Luizinha não aviava a fila indiana.,

Uma vez...
- Abalámos de Setúbal, éramos sete no Fiat!
E quatro voltaram no primeiro carro, da Covas & Filhos: o Seiscentos recusou-se a subir com a carga, mesmo aliviada,

Era melhor do que a coxa, que atacava para os lados do Castelo,
- Tinha um tijolo, para dar certo...
A coxa era de Setúbal, ia no Covas para lá.

Nas covas ficava a Marreca das Fontainhas, trinta paus, com troco de bichos,
- Era apertadinha!
A rapaziada jura que era do calo.

Toda a gente lá ia: literalmente,
- És um conas!!, Nunca foste?!

Não, amigo: com nove anos não me vinha nesses apertos…





terça-feira, 26 de fevereiro de 2019 0 comentários

Cena # 2032 - Dupla Nacionalidade.


Ao professor José Hermano Saraiva.


Cheguei a Monte Parnaso e já o Professor me esperava, ao cimo das escadas,
- Então, doutor, sempre bem disposto...
Um problema com a esposa, nada preocupante, melhorava com a terapêutica e sem esta,
- É seguro viajarmos para Itália?
(era isto que pretendia saber)
Desde que casaram que, por altura do Natal, passavam uns dias no sul de Itália (e traziam mais figura(nte)s para os presépios)
- Sim, claro. E de resto, se lá acontecer alguma coisa, consulta um daqueles médicos a sério!


A sério.,
Deixava o Professor para o final do dia e ia ficando sempre mais um pouco, até à hora do jantar. Conversávamos, recordava e acordava, pontualmente divergia, mas reconhecia-lhe fascinado a sólida cultura geral e o gosto pela História (não era a sua área de formação) e o narrador.
(exímio, ao jeito dos contadores da Praça Jemaa-El-Fna e da avó Jú)

- Ainda lhe conto mais esta...
Um dia pass(e)ava de carro, junto ao local onde presumivelmente ocorrera a batalha de Aljubarrota, construía-se, então, a nova estrada: um trabalhador empilhava ossos e mais ossos, de mil formas e tamanhos. Parei, olhei intrigado, demorei-me por ali...
- Deseja alguma coisa?
- Bem... Aqui foi seguramente o local da batalha., E vão seiscentos anos...

Mas quer levar um dos ossos, Levo com todo o gosto, de preferência um grande: um troféu!, Obrigado, muito obrigado,
- Estamos nós com esta frieza, amigo, escolhendo o osso pelo tamanho e nem sabemos se era português ou castelhano...
- Mas nem o gajo sabia... - desabafa o trabalhador, pés na terra e pá na mão.
- Como é que não sabia?!
- Ora, porque esse aí, é um fémur de cavalo...


Não se pode saber tudo,
Ansiei chegar a casa e partilhar o episódio. Dois ou três anos depois, passava na televisão.






segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019 0 comentários

Cena # 2031 - Não Morri para o Mundo, Sabias?


- Eu venho cá para que diga ao Delfim para não ir mais para a danceteria.
- Oh doutor! ..., Lá porque meteu a prótese no joelho e ficou mal, não quer dizer que eu tenha de ficar em casa a ouvi-la gemer a noite toda!

- Mas escusas de dizer lá na danceteria que és viúvo, que já me vieram contar!











sábado, 23 de fevereiro de 2019 0 comentários

Cena # 2030 - L.A, 3D...



La Reina Nuestra Señora de Los Angeles é multípara, mãe de oitenta cidades, multilingue e um caldo de culturas,

El Pueblo com meio milhão de mexicanos na rua no Cinco de Mayo, mariachi, burritos e tequila, a comer desalmadamente e o Dia de Los Muertos que visitam os vivos, guatemaltecos e salvadorenhos, massa e judeus,
A Nissei na Little Tokyo, taiko, dojos e carros alegóricos, tempura e tem paciência, os chineses que chegaram aos magotes para a corrida ao ouro, mexilhões de lábio verde, hambúrgueres de quase tudo. E também de vaca.



Los Angeles é boa onda, as primeiras surfadas em Malibu em pranchas de madeira, as baleias-cinzentas ao largo de Palos Verdes, fun fun fun, Beach Boys e Califórnia girls, good vibrations...
E más ondas, dos terramotos, as P. e as L., R. e S., filhas da P.

Harleys e Cadillacs, Batmobiles e drive-in.,
Estrelas, ninguém vai lá para ver o filme: L.A. respira sétima arte e vomita estatuetas, folheadas a ouro
(ao tempo da Segunda Guerra, em gesso, pintadas douradas e o famoso letreiro no Mount Lee não engana, já foi, por brincadeira, Hollyweed...)



O autocarro, colado de telefones de advogados, deixa-me em Santa Monica,
                              Yacht Harbor * Sport Fishing * Boating * Cafes

No pontão sobre estacas, cresce a animação do Pacific Park: a roda gigante e a vista noturna, a montanha-russa de cinquenta e cinco pés e não meti os meus, carrinhos de choque, e o carrossel com os cavalos esculpidos em madeira, Newman e Redford, A Golpada, aí rodada.

Uns copos na Companhia do Camarão, The Bubble Gump, a companhia não era a melhor, o preço, foge Forrest, foge!
Pedalei na marginal de palmeiras, em Venice, muito circo e borboletas, monarca e mais das outras, quadricípetes nos braços, this is L.A., a imagem vale mil palavras...



A fama não se mede aos palmos, a Sunset Boulevard serpeia pela montanha, desde a Figueroa à Pacific Coast Highway.
A Beverly Hills cresce em torno da Rodeo Drive, Lalique, De Beers e Valentino. E os famosos bangalós do hotel, local de encontro de Marilyn com os Kennedy, o pecado mora ao lado.
Quanto mais quente melhor,
... from Los Angeles, Califórnia, os Doors: Yeah, keep your eyes on the road, (...) we're gonna have a real good time, (...) they got some bungalows, (...) the future's uncertain, and the end is always near...
Ou Magritte e o genial cachimbo no LACMA: nem a palavra, nem mesmo o desenho são garante que o objeto exista...


A Strip, milha e meia despida de preconceitos, antes fenómeno de contracultura, hoje de coisa boa: à Amoeba, cresceu-lhe pseudópodes, muito vinil e mais cê dês, música ao vivo na House of Blues, um copo no sky bar do Mondrian, poiso de artistas, o Passeio da Fama e o Teatro Chinês, mãos e pés, alguns de barro, no pátio cimentado, o glamour do Chateau Marmont, em L e ao estilo do Loire, where will you be laughing tonight?, a Comedy Store, of course!



                                                                    - x x x -



- Gostaste de Los Angeles?...
Os estúdios da Universal, faz de urso na boca do tubarão e a entrar no Notting Hill, inchou-me o joelho e, de andar robotizado, pagavam-me figurante no Jurassic Park.

No IMAX 3D, passava o Shrek...
- No photos!
O tuga finge o inglês e vá de filmar o burro aos saltos. Aos saltos na cadeira, o burro só percebeu quando
- Tudo às escuras, imagina o foco de luz sobre mim, e o zurro do bicho...
NO PHOTOS !



- Connosco foi diferente... - lembrou o Nuno.
Isla Mágica, com a Dina, os sogros e os miúdos, óculos enfiados no filme 3D: S. Francisco, o piano saltava, atrelado ao carro. Naquilo desprende-se o piano, salta o condutor para o piano que desce vertiginosamente, ziguezagueando, colina abaixo.

- Fernando!, Fernando!! - gritou a sogra, ao marido.
- Avó, tira os óculos!!

- Quais óculos!!, Salta lá para cima Fernando, que o homem mata-nos a todos!!!




 
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