sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Cena # 1552 - Zooreal.


História de um dia no Zoológico com os bichos.


No dealbar do século passado reinava D. Carlos,
A reinar: mulherio e caça grossa,
Não é de agora: rotativismo do escopelismo gratuito, Regenerador e Progressista, para trás mija a burra e mais do mesmo, o desgoverno ditatorial de João Franco.

A dissipação dos dinheiros públicos não era como no tempo da outra senhora, Dª Maria Pia, sua mãe, Querem rainhas, paguem-as!, mas os adiantamentos-fantasma do Tesouro repetiam-se...
(nem a Madame Brouillard sonhava da missa metade)

Sucumbiu o rei que reinava, na fatiota de generalíssimo, à Winchester do professor Buiça: trocou o camarote do S. Carlos pela música de câmara de S. Pedro,
Só morre quem quer., professorava o senhor que Santa Comba deu.


As senhoras, espartilhadas nas barbas de baleia e as mamas insufladas no método da Madame Mercier, resultado garantido em trinta dias: a Gibson girl, a Barbie da altura, cabelo apanhado, copado, e o chapéu extravagante de penas,
Silhueta em S, subiam, em grupo e a direito, a rua Nova do Carmo, rumo aos Grandes Armazéns: vestiam-se à grande e à francesa,
Os cavalheiros, ceroulas, botões de punho e chapéu de coco, molhavam o bigode sedutor na tertúlia do café.
O domingo derretia-se na avenida da Liberdade, antes Passeio Público, teatro e
Tourada: as manas Perliquitetas-caídas em desgraça, o gineceu vendido nos becos e os filhos ilegítimos, tabernas e barracas, a fome e as Cozinhas Económicas,
Belle Époque,
Já não era a Sopa da Caridade, e valha-nos isso, os piqueniques e as romarias à feira do Campo Grande, um banho à roupa, na praia de Algés e a ilusão sebástica no número da lotaria...


Os carros puxados por animais deram lugar aos elétricos e o Jardim Zoológico mudou-se para as Laranjeiras,
Cobras e lagartos, os miúdos gostam,
- Pede-se o favor aos mandris da cabina trinta e oito de não pular!,
Três e quatro vezes, e cinco minutos suspensos dos leões, os babuínos-da-Guiné, duas cabinas à frente, só lhes faltou trepar o cabo!

Depois, é como tudo: o bongo a empanturrar-se, promovido a rei da selva, o rei leão atirado para os quadradinhos, o bufo-da-Virgínia, o caimão-de-lunetas, lágrimas de crocodilo, o gibão-de-mãos-brancas e o pecari-de-colar e o crime do colarinho, o freak mutum-pinima e o pavão, o órix em pontas e o veado-da-Birmânia e há-os a monte,
O cemitério dos bichos, o Leão que é cão, À nossa Pompom., a saudosa coelhinha. Imagino,
O tigre da Sibéria bate o dente com este frio...

O Pai Natal acuou no snack-bar África e cravou os incisivos na sanduíche de impala, à pala do jardim; parei para o café, a cáfila não despregou do homem das barbas,
Um elogio falha sempre bem,
- São seus netos?...
- Não, bisnetos...
A velha equilibrou as lentes na ponta do nariz e deitou contas à vida,
- Mas olhe, ninguém lhe dá mais do que cinquenta...














0 comentários :

Publicar um comentário

 
;